segunda-feira, 21 de abril de 2008

À Luz da Água

O dia 23 de Abril de 2008 amanheceu ensolarado. As pessoas que acordaram cedo estavam satisfeitas com tanto brilho em um céu azul. Algumas pessoas simplesmente não dormiram. Outras sequer acordaram pela manhã. Houve ainda as que morreram entre as seis e o meio-dia. Esta é a história de alguém que tentava vir ao mundo às oito.

Nadim achou que fosse explodir. Grávida de uma menina, estava em desespero. Suas contrações haviam começado uma hora depois que seu marido saiu para fazer os biscates usuais. Ela suava muito, e não conseguia se levantar. Sua barriga estava enorme. Olhava para as telhas no teto de seu quartinho, em um casebre muito pobre num paraíso verde qualquer. O pavor fazia aquela aranha no canto da parede branca e encardida parecer muito maior do que o tamanho de sempre. E olha que ela já a conhecia de dias atrás.

Fez um esforço enorme para ficar sentada na cama. Olhou através da janela aberta a rua de barro. Outros casebres se levantavam como ela do chão (sem poder) a 50 metros de sua casa. Naquele momento, por uma coincidência qualquer, ela viu Lalo andando pela rua, e isso significou a salvação de sua vida.

Chame Deus, o Diabo, Shiva ou Olorum. Ou apenas constate que a estatística permite que uma coincidência aconteça, em detrimento de outras infinitas que deixam de acontecer. Lalo era um médico recém formado. Ele havia passado os últimos cinco meses andando pelo mundo, a fim de acelerar um pouco seu amadurecimento e sua concepção sobre as pessoas... Claro que não, ele queria se divertir após suar para terminar sua faculdade. Qual era a chance de encontrar após todo este tempo entre as comunidades pobres por onde andou um caso emergencial que dependesse dele? Um dia ele ia se deparar com o inevitável: sua responsabilidade.

Nadim viu Lalo. Um jovem de aproximadamente 23 anos absolutamente desgrenhado, sujo, com roupas encardidas e uma pequena mochila nas costas. Aquele homem poderia roubar-lhe a casa, matar-lhe juntamente de sua filha. Ele podia ser um demônio exatamente como parecia, e até inventar de estuprar-lhe e arrancar Aditi de suas entranhas à força. Ou podia ser apenas um mendigo de passagem que buscaria ajuda de alguém da vila de bom grado. Ou um médico destes que se aventuram em vilarejos pobres que se vêem em filmes de cinema.

Nadim não quis saber o que ele era, pois nada podia ser pior do que morrer ao invés de dar a luz a Aditi. Estufou os pulmões e gritou de dor e desespero por sua ajuda.
- Pelo amor de Deus! Ajude-me! Eu vou ter um filho!

***


Lalo andava pela ruazinha de terra daquele vilarejo paupérrimo. Fazia Sol, mas a noite tinha sido chuvosa. A estradinha tinha um monte de poças de lama. Imaginava-se exatamente como queria: na cloaca do mundo, se o mundo fosse uma ave. Galinhas ciscavam por alguns cantos, cães de rua em outros. O lixo se encostava na lateral de algumas casas, ou em terrenos baldios. Havia muita terra e pouca gente. Em alguns cantos, pequenos grupos de crianças brincavam à beira de valas imundas. Estavam descalças, sorridentes, mal vestidas, barrigudas. E, por fim, felizes de sua condição. Ignoravam qualquer sinal de desumanidade em suas condições de vida.

"Se eu tivesse nascido aqui, já teria morrido, com certeza. Duas semanas depois de nascido."

Durante seu mórbido pensamento, ouviu os gritos de uma mulher que se esforçava para ficar de pé na janela. Não entendia suas palavras, mas obviamente eram berros de desespero onde estava imbuído um pedido de ajuda. Imediatamente, correu na direção da janela e segurou a mão da mulher.

***


Nadim viu o homem correr imediatamente para a janela, em resposta aos seus gritos. Segurou sua mão, e ela caiu na cama novamente, ofegante. Ele pulou a janela para dentro do quarto, e arregalou os olhos na direção da barriga estufada. Espalmou as mãos na direção de Nasim, e ela entendeu: "Acalme-se". Respirou fundo várias vezes, para mostrar a ela como deveria se comportar, até que ela o imitasse. Abriu a porta de madeira e entrou pela casa, em busca de instrumentos que pudessem servir-lhe, porque o momento era de improviso.

Separou na cozinha alguns panos à vista, pegou uma panelinha preta de fuligem e acendeu o fogo. Pegou uma tina de água escura e encheu a panela, colocando-a no fogão. Abriu a mochila, pegou alguns comprimidos de uma cartela e jogou dentro da panelinha. Voltou ao quarto com a mochila aberta e tirou de dentro alguns instrumentos para medir pressão e temperatura, e começou a ler as medidas que interessavam.

"Ora, ora. Que bela maneira de começar o dia."

Nadim se acalmou quando percebeu que o jovem sabia o que estava fazendo. Após alguns minutos, voltou ao fogo e tirou a panela. Pegou um aparelhinho do tamanho de uma pequena caixa de fósforo e mergulhou na água. Após uns trinta segundos, leu em um display digital duas letras: OK. A água estava própria para consumo. Toda a terra havia decantado. Microorganismos morreram, e havia também um aditivo em sais minerais. Derramou a água fervendo em um outro pote, jogou lá alguns pequenos instrumentos cirúrgicos, e voltou ao quarto com o restante.

Nadim se sentia muito segura, apesar da dor. Era a primeira pessoa do vilarejo que se submetia aos cuidados de um médico. Um médico de verdade. Sua filha merecia tudo isso? Nadim olhava com ternura um singelo quadro na parede oposta à sua cama. Nela figurava uma mulher montada em um tigre. Usava uma coroa, tinha oito braços e combatia um demônio vermelho com chifres de gamo. Cada uma de suas mãos tinha uma arma, exceto por uma, que segurava um escudo.

***


Em uma cama ensopada de líquido amniótico num vilarejo paupérrimo uma criança nasceu, no dia 23 de Abril de 2008, na manhã ensolarada. Veio à luz amparada por um médico recém-formado e desamparado de qualquer ajuda chamado Lalo Bruhn, que após este episódio resolveu voltar imediatamente para a casa da irmã, Norma, em uma grande cidade, no litoral de um país tropical.

Mãe e filha passavam bem, e Lalo virou uma celebridade. Um anjo, enviado por Mahadevi, para ajudar suas servas na luta pela vida.


*** Inspirado em Lab-On-A-Card


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quinta-feira, 17 de abril de 2008

Contato de Grau Virtual


Bárbara e sua mãe dormiram na casa da avó, esperando-a em vão chegar do hospital. Às 8 da manhã do dia 23 de abril, ela saiu de lá e chegou à escola, junto com a maioria das outras colegas. Despediu-se da mãe, e lá foi a garota de 5 anos entrar na fila da sua classe. Estava no meio de outras vinte crianças, todas mais ou menos da mesma idade.

Choros, gritos, risos, correria, pegar na saia da professora, colocar as mãos nos ombros do coleguinha da frente, "eu sou o menor portanto sou também o primeiro da fila", "Tia! Tia! Fulano puxou meu cabelo", "Olha, garoto você vai ficar de castigo..." Tudo isso era esperado no pátio de um colégio infantil.

Nada disso acontecia. Todas as crianças estavam em fila e o silêncio era completo. Não se tocavam. Entravam quietas, chegavam em seus lugares seguindo fitas que separavam as turmas de cada série por cores. Três professores aguardavam em cada fila para receberem seus alunos. Bateu o sinal. O portão se fechou. As crianças seguiram amparadas por seus professores até suas salas, turma por turma.

Bárbara chegou até sua sala com lágrimas escorrendo dos olhos, mas não emitia um gemido sequer. Sentia saudades. Nunca antes acontecera aquilo. As crianças não se comunicavam entre si. Aquela era uma escola bem peculiar.

Algumas coisas eram ensinadas desde cedo aos alunos. Entre elas, o hábito de, ao chegar, colocar seus óculos de projeção. A menina chegou e vestiu os óculos por cima do rosto molhado. Ana reparou as lágrimas, e colocou também seus óculos.

***

Naquele deserto havia várias criaturas de naturezas diferentes: a Girafa, o Elefante, Thor, um Ursinho de Pelúcia, um Círculo de Fogo, Querubins Alados, um Grifo, um Anão de Circo, um Homem com Cabeça de Águia. Aquele era um mundo completamente encantado; um deserto onde não havia horizontes, apenas um esvanecer-para-o-branco a uns mil metros de raio. A voar estavam Águias, Abutres, Pombos, uma Vaca e uma Abelha Gigantesca. Um Cubo Rosa de Óculos também estava presente. A Lagartinha Roxa estava lá, no meio da multidão. E a Macaca. Do meio da areia, a Macaca pediu que os outros bichos abrissem um círculo, para que as brincadeiras pudessem começar. As criaturinhas obedereram.

No meio do círculo formado, a areia começou a ondular. Lentamente, tomou a aparência de água, que então se acalmou e ficou lisa, tornando-se opaca, dura e espelhada. A bicharada prestava atenção, quieta, e viam seus reflexos no chão.

A Girafa olhava o Bicho-Preguiça, que por sua vez olhava para o Pombo, que por sua vez olhava a Borboleta, que olhava o Anão, que olhava Thor, que olhava a Janet Jackson, que olhava o presidente Bush com faixa de Rambo. Este olhava o Abutre, que Sobrevoava a Macaca que prestava atenção na Lagartinha Roxa.

A Lagartinha Roxa apenas olhava a Girafa através do espelho no chão, e estava cabisbaixa.

Pergunta-se: como deve ser uma Lagartinha Roxa cabisbaixa?

Foi pensando no porquê da tristeza da Lagartinha Roxa que a Macaca deu o sinal. O chão ficou quadriculado, cada quadrado de uma cor. Na testa de cada bicho brotou uma foto diferente. O Abutre tirou os olhos da macaca e deu um rasante sobre o Panda, que andou até o quadrado com a Torre Eiffel e parou, apontando para o Robbin Williams, que andou até o quadrado com uma onda e parou. Por sua vez, Robin Williams apontou para o Leonardo DiCaprio, que tirou o Panda de seu quadrado e pôs-se sobre ele - ao Panda coube uma nova escolha: a Ponte de São Francisco. Uma a uma, as criaturas iam escolhendo as fotografias que pressupunham estar em sua testa. Cada bicho podia tirar do quadrado um outro bicho, se a foto que aquele bicho escolheu estivesse errada. Ao pisar em um quadrado corretamente, este se tornava verde, indicando a escolha certeira. No entanto, ninguém podia sair de um quadrado escolhido erroneamente sozinho. Nem que quisesse. O jogo não permitia.

A Lagartinha Roxa ficou com o Cristo Redentor. Este foi o último movimento, e o jogo acabou. Sem comemorações, sem aplausos, sem choro, sem manifestações. Apenas terminou, e todos ficaram esperando a Macaca, que liberou os quadradinhos para que as crianças pudessem se organizar em grupos menores. Pecinhas virtuais de encaixar pularam do chão, e as crianças começaram a montar seus quebra-cabeças.

A Lagartinha Roxa foi para perto do Panda. Ela gostava dele. Como qualquer criança de 5 anos, a Lagartinha Roxa não sabia o que a fazia se sentir tão bem pertinho daquele urso. Ele montava seu carrinho - seu quadragésimo oitavo carrinho com cinco peças - era tudo o que sabia fazer. A Lagartinha olhava o carrinho e até esboçou um sorriso, que o Panda ignorou. Quando terminou seu primeiro carrinho, deixou-o no chão e pegou mais pecinhas pra montar outro.

Ela pegou algumas peças e também montou um carrinho - três vezes mais rápido, e idêntico. Num gesto de fraternidade, estendeu a mão, oferecendo o seu brinquedo ao Panda. Ele nem piscou. Continuou tentando encaixar seu segundo carrinho, e ela naquele momento sentiu uma pontada forte na barriga, com um medo terrível de não existir para seu colega. Ele nunca olhou pra ela. No entanto, com outros bichos era bem chegado, na medida que era possível àquele circo virtual.

Agora ela ganhava mais um motivo pra chorar. E chorou, mais ainda.

***

Após duas horas de jogos lúdicos, soou o alarme. A Macaca agora era Ana novamente, e a Lagartinha Roxa era Bárbara, cujas lágrimas continuavam molhadas. Ana pegou Bárbara pela mão e a conduziu para fora da sala.

- Oi, Bárbara... Tudo bem contigo?

A criança olhava para o lado. Ana era pedagoga formada. Mesmo assim, era muito complicado lidar com uma situação deste tipo. A Macaca continuou em sua tentativa.

- Lagartinha, tudo bem?

A criança meneou a cabeça, acenando que não.

- O que aconteceu? Quer falar comigo?

Bárbara foi até uma mesinha do hall onde estava, pegou um papel e alguns pedaços de giz de cera. Ana acompanhou. Desenhou uma borboletinha amarela numa folha de papel branco. Pintou três círculos vermelhos nas asas da borboletinha. Desenhou uma linha roxa na parte de baixo do papel. Olhou a professora.

- É sua mãe?

A garotinha permaneceu olhando fixamente pra ela.

- O que tem sua mãe?

Bárbara continuou olhando durante uns dez segundos. As lágrimas começaram a brotar novamente, de maneira silenciosa, cortada apenas por soluços. Trinta segundos. Ana continuava olhando fixamente a criança. Ela pegou a folha de papel com suas pequeninas mãos, e rasgou ao meio, separando a borboleta da linha roxa na parte de baixo do papel. Jogou a parte com a borboleta pro alto, e soluçou mais gravemente. Abraçou Ana.

A professora levou a menina até a secretaria e ligou para a casa dos pais de Bárbara:

- Alô? Aqui é Ana, professora da Bárbara. A mãe dela está?
- Um segundo - a voz feminina do outro lado.
Após alguns segundos:
- Pois não? Aqui é Andrea quem fala. Aconteceu alguma coisa?
- Oi, Andrea. Não se preocupe, a sua filha está bem. Mas ela chegou aqui muito triste, chorosa... Aconteceu alguma coisa com você?
- Comigo? Não, comigo... Não... - a reticência denunciava que algo acontecera.
- O que foi então? - Ana.
Após um suspiro, Andrea desabafou:
- Desculpe, Ana... Eu não devia tê-la levado à escola hoje. Mas eu pensei que tivesse escondido dela as coisas que aconteceram essa noite... Tsc, que merda que eu fiz, ela deve estar péssima.
- Mas o que aconteceu?
- Minha mãe foi fazer um tipo de checkup ontem pela manhã... Mas teve um problema emergencial, e foi internada... Até agora não saiu de lá, e não pode receber visitas... Estou muito apreensiva, o clima no hospital está super tenso...
- Entendo...
- Ai, meu Deus, eu não quero que nada aconteça com a minha mãe! - E um choro brotou do outro lado da linha. Agora, Ana tinha que cuidar de duas crianças.
- Calma, Andrea, vai tudo ficar bem... Olha, crianças autistas podem ser muito mais perceptíveis do que nós, você já devia estar acostumada a isso. O melhor seria vocês duas terem ficado juntas.

O choro de Bárbara tornou-se alto. Chorava em berros longos, graves e roucos demais para uma criança. Era embaraçoso.
- Você tem que mandar alguém buscá-la. Olha, ela está chorando muito, não tem condições de ficar com as outras crianças.
- Tá bem, tá bem... Vou mandar nossa babá. Mil perdões, Ana... Eu fiz uma tolice sem tamanho mesmo...

O ventre da mãe e da filha doía bem próximo ao peito - naquele local em que todo mundo já sentiu dor, se sofreu de solidão. No entanto, as características de intensidade, impulso e duração eram determinadas preponderantemente pelos genes que a filha recebeu da mãe. Eram dores idênticas. E de maneira equivalente, como a filha teve de ir à escola cumprir obrigações sem ter notícias da avó, a mãe teria que ir mais tarde para o trabalho, porque as obrigações não esperam a dor passar.


*** Inspirado em Eureka
*** Fotografia de Woodley Wonderworks


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sábado, 12 de abril de 2008

A Cor da Consciência

Quando mergulhou no mar, em plena Quarta-Feira ao meio-dia, Matheus planejava não pensar em nada.

Todos os dias ele nadava pela manhã. Ficava na água durante duas horas inteiras. Desta vez, ficaria um pouco mais. Mergulhou às três e meia da tarde e sairia apenas três horas depois.

Assim que chegou à praia, saiu de seu carro e seguiu por uma pequena trilha que desembocava na areia. Vestia apenas uma sunga de banho vermelha, e tinha em sua posse somente a touca de borracha vermelha, óculos de natação, relógio de pulso e a chave de seu carro, que enfiou na touca antes de mergulhar. Seu corpo era musculoso e muito bem definido - este era o presente que o mar reservava àqueles que o atravessavam rotineiramente.

Ao tocar a espuma da água salgada com o pé esquerdo, Matheus sentiu aquele choque inicial do contato com a água fria. O silêncio era perturbado apenas pelo quebra-quebra das ondas e pelo zumbido do vento da orla em seus ouvidos. Os pés se enfiavam na areia à medida que adentrava o mar. Seu corpo reagia acelerando o pulso e aumentando a freqüência dos batimentos cardíacos para compensar a perda de calor. Sua respiração se aprofundava.

"Ninguém gosta dessa hora."

Com a água já no nível de seu abdomen, Matheus começou a relaxar. Esticou os braços, alongou as coxas puxando o peito dos pés na direção dos glúteos, um de cada vez. Escolheu como alvo o horizonte. Queria sempre chegar à beirada do mundo. Mergulhou a cabeça de uma vez, abraçando o mar e a causa dos ignorantes, querendo não saber de nada.

"Inspira... Expira... Inspira... Expira..."

Braçada após braçada, uma inspiração após a outra, Matheus entrou em transe. Após a primeira meia-hora na água, seu ritmo era perfeitamente regular, e avançava a uma velocidade rigorosamente constante. Neste estado, sua mente era um turbilhão do tudo e do nada. Nestes momentos ele sentia não existir, fazia apenas por fazer. Nada interferia, e ele não interferia em nada. Até começar o flashback.

***



Na clínica onde trabalhava, Matheus era sempre paparicado pelas enfermeiras. Tinha o privilégio de ser o filho do dono do negócio. Apesar de sua posição privilegiada, Matheus não abusava do fato, pois sabia que um dia seria ele a herdar a posição do pai. Um dia seria ele a mente comandante daquele ser coletivo.

Recebeu Pamela às oito da manhã. Como sempre, ela exibia-lhe um charme fora do comum. Matheus sentia uma enorme empatia por ela, e não sabia explicar o porquê. Talvez fosse parecida com alguma pessoa próxima e ele não conseguia lembrar quem era. Talvez fosse o jeito de olhar. Talvez fosse o beijo de despedida que sempre dava no lado direito do rosto.

"Talvez eu tenha me apegado à causa. Sua condição é tão frágil. Sei que não sou um super-herói, mas não gostaria de ver uma pessoa tão bonita se despedir da vida."

Ela praticamente se jogava nos braços de seu anfitrião. Julgava tudo aquilo uma grande farsa - a farsa da vida. Não acreditava em quaisquer que fossem os sinais que a encaminhavam até sua morte. Sabia que nunca desempenhara papel algum para a realidade por trás do pano de fundo da existência.

"Eu nunca estive viva, e por isso também não morrerei. Vida ou morte não existem. Quero ao menos ser a dona do prazer que a diversão proporciona."

Jogava-se amavelmente nos braços do "lindíssimo" Matheus, como o chamava:

- Lindíssimo, eu acho que é hoje. Preciso do último beijo da minha vida.

Os dois riam-se muito com este mini-teatro. Matheus correspondia à altura:

- Vamos, Pamela, minha donzela. Deite-se que eu vou prepará-la para que eu possa cuidar de você.

Os exames semanais eram sempre tensos. Era complicado submeter-se a um exame de circuitos neurais. Além de tomar substâncias controladas em horários fixos diariamente para manter a legibilidade dos sistemas cognitivos, havia toda a dor de cabeça, e ainda por cima aquele tubo ultra-claustrofóbico onde tinha que se enviar.

Pamela deitou-se numa esteira de fibra. Matheus ligou o aparelho de som. A esteira adentrou-se no tubo horizontal de um enorme aparelho, similar a um elefante branco. O volume dos violinos aumentou em seu ouvido. Ao penetrar o aparelho, Pamela viu a luz violeta se projetar em seus olhos, e sentiu sono. Dormiu.

Matheus deu início à operação do elefante branco. Puxou alavancas, apertou botões, tudo no compasso dos violinos. Quando entrou o piano, recebeu no monitor de trinta polegadas a evidência de que Pamela encontrava-se inconsciente. Manipulando a máquina com uma luva cheia de fios conectados ao painel, levou braços mecânicos aveludados cuidadosamente em torno da cabeça da paciente, e a máquina pressionou-lhe as têmporas e todos os pontos onde era necessário haver contato de eletrodos.

Após alguns outros segundos e funções ativadas e desativadas, apareceu na tela todo o esquema nervoso de Pâmela, como um corpo homuncular - uma forma humanóide, porém com membros e partes de tamanho proporcional ao controle nervoso que a ex-bailarina exercia sobre eles. Tinha os braços e pernas bem longos, mãos pequenas, pés grandes de dedos enormes. Seu tronco era grande. Seu cérebro diminuía a cada semana.

Todo o modelo pintado na tela era multi-colorido. Os fios nervosos assemelhavam-se a um arco-íris de infinitas cores. Cada uma delas representava um aspecto diferente do mapa cognitivo de Pamela. Em um objeto semelhante a uma aquarela que aparecia na tela, Matheus era capaz de selecionar uma das cores mostradas no esqueleto nervoso. A máquina se encarregava de mostrar então somente os neurônios que possuíam aquela cor. Estava aí a capacidade do sistema de isolamento dos sentidos que ainda possuía a paciente. Cor pós cor, Matheus identificava os sentidos e anotava em legendas. Estava estudando Pamela há quatro semanas, verificando o avanço da moléstia inevitável que a assolava.

Documentou primeiro os sentidos primários: o azul era a visão, marrom era o paladar, o verde era o olfato, amarelo o tato e vermelho era a audição. Teve que consultar centenas de vezes os trabalhos de seu pai para documentar corretamente outras cores que surgiam na tela. Quando precisava, executava zoom nas células até que seus núcleos ficassem do tamanho de uma bola de basquete. Em suma, poderia estudar cada neurônio individualmente, se quisesse.

Eles não sabiam o que era a mazela, ou como havia chegado até a cabeça de Pamela. Mas o fato é que aparecia branca em sua tela, como raízes grossas saindo de dentro de seu cérebro. Teve que documentar cada cor que estava em contato com o branco. Esta era uma cor que não devia aparecer, e interessava saber quais sistemas estavam associados ao hóspede. Apesar da aparência do cérebro, nada parecia estar errado enquanto estava acordada. No entanto, algo mais residia sua cabeça, além dela própria.

Foi esta coisa que levou Pâmela à morte às dez da manhã daquele dia. Passou vinte e quatro horas dentro do elefante branco, que supunha ser o último bastião de seu diagnóstico. Foi no ritmo da esperança, da vaidade e da amizade que Matheus acompanhou as vinte e quatro últimas horas de vida da gentil mulher de oitenta e nove anos.

E foi neste ritmo - de braçadas, respirações profundas e esperanças perdidas - que Matheus saiu da água exausto. Nem sequer viu Norma sair da praia, pegar seu carro e ir embora.

*** Inspirado em Brainbow
*** Fotografia de Jim Fischer


sexta-feira, 4 de abril de 2008

David A. Huffman

Nascido em Ohio, formou-se em Engenharia Elétrica em 1944. Serviu as forças armadas em sua juventude, trabalhando como mantenedor de radares que serviam para limpar minas nas águas da China e do Japão, logo após a Segunda Guerra Mundial. Morreu em 1999, após dez meses de luta contra um câncer.

Sua maior contribuição para a humanidade foi a técnica computacional conhecida como o Código de Huffman, o método para compactar informações que está presente neste momento no seu Ipod, na sua câmeras digital, nos modems de Internet, nas TVs de alta definição e até em invenções mais antigas: seu telefone e no fax do seu trabalho.

Este código foi desenvolvido durante seu doutorado, em 1951, no MIT (Massachussets Institute of Technology), uma das maiores universidades tecnológicas do mundo. Aos 26 anos, o genial Huffman superou o método ensinado em aula por seu autor, o professor Robert Fano.

Huffman tinha uma fixação inata por formas elegantes. Seus hobbies eram o origami e o que é chamado tecnicamente de "superfícies mínimas" - na prática, bolinhas de sabão. Levou seus estudos sobre superfícies para a arte do origami, inventando maneiras de dobrar papel em formas curvas sem enrugá-lo. Assim surgiu um novo campo de estudo, chamado Origami Computacional, que questiona toda a estética estrutural e as melhores maneiras de se utilizar o espaço.

A Huffman cabe o mérito de ter manifestado belas relações matemáticas em belas formas visuais. Ao ser intitulado um artista por seus estudos estéticos, declarou: "Eu não pretendo ser intitulado um artista. Nem ao menos sei definir arte. Mas descobri que é natural que elegantes teoremas associados às superfícies de papel gerem elegância visual."

Artisticamente, seus estudos possibilitam trazer à dobradura de papel tradicional quaisquer formas orgânicas e curvas. Sua filha Elise mantém origamis feitos por seu pai, que lembram conchas, sementes e torres belíssimas.

É como se o papel estivesse imbuído com vida.

Algumas fotos podem ser vistas aqui: Curved Crease Origami

Um de seus trabalhos científicos sobre dobraduras curvas pode ser visto aqui: Curvature and Creases: A Primer on Paper

Mais David Huffman na Wikipedia

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Do Papel à Vida


Caía a tarde na erma praia. Norma, com seus vinte anos, caminhava de costas pela fina areia, como sempre fazia desde os nove. Ela gostava de olhar o desenho das pegadas que deixava ao longo do caminho, enquanto pensava nas pegadas que deixava em sua vida:

"As pessoas passam umas pelas outras, e ao final das nossas vidas, o que restam são as impressões. Uma sucessão delas. Eu sou a praia, com tantas pegadas que nem sei mais quem passou por mim..."

Vagava em seus pensamentos aleatoriamente. Esta era uma sensação que amava: a de deixar sua mente vagar, vagar... Fixava-se e desapegava-se de um assunto, como agora olhava a maré e as ondas a molharem seus pés - o assunto- com a água gelada:

"Be cool, Madame Norma."

O céu estava perfeitamente azul. O horizonte, impávido, reto. O espírito, intacto. O Sol, amarelo. Norma previa que nada obstruiria seu caminhar irregular e meio desequilibrado. Andar de costas não era para os homens. Mas também, ela queria ser outra coisa mesmo. Usava um leve vestido branco de alças, tinha cabelos ondulados, castanhos claros, olhos castanhos, uma boca de lábios finos e um ar toda vida gentil e sonhador.

Norma era a água da praia, e os pés da existência eram os assuntos que sua mente molhava. Entre uma divagação e outra, atrevia-se a colher uma ou outra conchinha. Ela sabia que mais tarde teria de devolvê-las à água.

"Estou apenas tomando-as emprestadas. Não se zangue, ok? Daqui a pouco eu volto."

Tinha a tiracolo uma bolsa preta no formato de um paralelepípedo. Parecia uma pequena caixinha onde ela enfiava os objetos que tomava emprestados da mãe natureza. Ao final de quarenta minutos, tinha percorrido toda a praia. À sua direita, o Oceano Atlântico. À sua esquerda, trinta metros de areia e uma estrada. Além da estrada, a mata verde pintava uma paisagem tão solitária e biodiversa quanto podia ser um pedacinho de Mata Atlântica.

"Faltou só a música. Tsc, esqueci meu Ipod."

Encontrou no final da praia as costas verdes e íngremes de um morro, em cujo sopé residiam pedras enormes. Sentou-se em uma das mais baixas, abriu um segundo compartimento de sua bolsa. Retirou um frasco de protetor solar, espalhou um pouco nas mãos e pôs-se a massagear o rosto com o creme e de olhos fechados. Tinha a consciência em cada um de seus gestos.

"Isso é que é vida..."

Já protegida e acomodada, guardou seu protetor solar e abriu um terceiro compartimento da bolsa. Dele, sacou um óculos com a armação preta e um suporte para a cabeça, como se fosse uma viseira. Regulou a posição das lentes e apertou um botãozinho discreto e vermelho - Click, madame, e voilá! - os óculos emitiam uma cintilante e leve luz violeta dos aros das lentes.

Entremos nos sentidos de madame Norma.

Estamos vendo a parte de dentro da bolsa: um cubículo com uma espuma e um formato que acomoda perfeitamente os óculos. Além das lentes, um mundo normal. Atravésdas lentes, este mundo recebia por sobreposição uma grade verde que seguia as superfícies e suas perspectivas. Os óculos escaneavam tudo.

Vamos aos controles. Ajustando um regulador giratório ao lado do botão vermelho, as linhas se tornavam mais ou menos proeminentes, até quase se desvanecerem, ou até se tornarem chamativas como uma macarronada super-fina. Um outro regulador ajustava a taxa de transparência das lentes, podendo torná-las completamente opacas. Com um outro botão, as linhas se desconfiguravam, e um rastreador de superfícies buscava um mapeamento alternativo das grades, caso o software interno não tenha tido sucesso ao realizar o último mapa. Um último botão ajustava a densidade das linhas.

Norma pegava as conchinhas uma a uma e filmava-as com seus óculos. Deve ter demorado uns dez minutos com todas elas - talvez umas quinze, ao todo.

Terminando, Norma levantou-se, fechou tudo e tornou a andar pela praia, de costas. Respirando fundo, passo a passo, devolvia as conchinhas à água.

"Não falei? Cada uma de volta à sua vida."

Atravessando a praia de volta ao outro extremo, chegou em seu carro. Estava anoitecendo, e talvez fosse umas dezoito e meia do dia vinte e três de Abril de dois mil e oito. Ao mesmo tempo em que dava a partida, Matheus chegava à areia, vindo de suas braçadas diárias. Costumava fazê-lo pela manhã, mas excepcionalmente naquele dia resolveu fazê-lo à tarde.

Ao partir pela estrada que seguia a praia, Norma ainda teve tempo de ver o nadador que saíra do mar e neste momento executava alongamentos na areia. Ao passar pelo extremo das pedras, onde esteve catalogando as conchas, viu logo à frente um outro carro, na beira de uma trilha que poderia conduzi-la de volta à praia, caso a vontade louca por um romance perfeito e surreal sobrepujasse seu bom senso, sua consciência da realidade na qual se põem todos os seres humanos, por um consenso besta e milenar qualquer.

"Você fica pra depois."

***

Chegou em casa por volta das sete e meia da noite.

"Nossa, que bagunça..."

Sua maneira de arrumar a casa era tão orgânica quanto as conchas que mapeara, e não haveria tempo para arrumar melhor, seu trabalho devia ser terminado até a manhã seguinte. Atravessou a sala, entrou pelo corredor e dirigiu-se a seu estúdio. Quadros, pranchetas e esculturas encontravam-se caoticamente posicionados.

Abriu sua bolsa, tirou os óculos e plugou-os em seu computador. Ligou a máquina, e abriu um programa. Através dele, concluiria sua tarefa. Na frente de dois monitores de vinte e duas polegadas, deu a partida no processo. Os modelos em 3D que foram mapeados na praia saltaram na tela. Pouco a pouco, cada um dos modelos em grades verdes e formas de conchas eram desdobrados. Literalmente desdobrados e desencaixados aqui e ali.

Enquanto o computador fazia sua parte, Norma chegava mesas pra lá, cadeiras pra cá. Tintas, latas, massas, quadros e cavaletes eram juntados nos cantos e uma clareira se formou naquela pequena bagunça. Parecia que um redemoinho tivesse jogado tudo para as bordas do estúdio. Ainda teve tempo de tomar banho, preparar um café e comer alguma coisa antes de terminados os cálculos.

Depois de duas horas, Norma selecionou os três modelos mais viáveis para seu trabalho. Separou várias folhas de enorme tamanho - sempre recicladas - e pôs-se a seguir acuradamente cada instrução da máquina para chegar àquelas formas, mas em escala maior.

Às três horas da manhã, havia no chão três conchas em formato de caracol reproduzidas em papel, cada uma com cinqüenta centímetros de comprimento e trinta de altura e largura, completamente feitas conforme manda a tradicional arte do Origami - sem recortes ou colagem, apenas dobraduras e encaixes.

"Pronto. Só falta pintar."


*** Inspirado em Computational Origami
*** Fotografia de Chris Gin