O dia 23 de Abril de 2008 amanheceu ensolarado. As pessoas que acordaram cedo estavam satisfeitas com tanto brilho em um céu azul. Algumas pessoas simplesmente não dormiram. Outras sequer acordaram pela manhã. Houve ainda as que morreram entre as seis e o meio-dia. Esta é a história de alguém que tentava vir ao mundo às oito.
Nadim achou que fosse explodir. Grávida de uma menina, estava em desespero. Suas contrações haviam começado uma hora depois que seu marido saiu para fazer os biscates usuais. Ela suava muito, e não conseguia se levantar. Sua barriga estava enorme. Olhava para as telhas no teto de seu quartinho, em um casebre muito pobre num paraíso verde qualquer. O pavor fazia aquela aranha no canto da parede branca e encardida parecer muito maior do que o tamanho de sempre. E olha que ela já a conhecia de dias atrás.
Fez um esforço enorme para ficar sentada na cama. Olhou através da janela aberta a rua de barro. Outros casebres se levantavam como ela do chão (sem poder) a 50 metros de sua casa. Naquele momento, por uma coincidência qualquer, ela viu Lalo andando pela rua, e isso significou a salvação de sua vida.
Chame Deus, o Diabo, Shiva ou Olorum. Ou apenas constate que a estatística permite que uma coincidência aconteça, em detrimento de outras infinitas que deixam de acontecer. Lalo era um médico recém formado. Ele havia passado os últimos cinco meses andando pelo mundo, a fim de acelerar um pouco seu amadurecimento e sua concepção sobre as pessoas... Claro que não, ele queria se divertir após suar para terminar sua faculdade. Qual era a chance de encontrar após todo este tempo entre as comunidades pobres por onde andou um caso emergencial que dependesse dele? Um dia ele ia se deparar com o inevitável: sua responsabilidade.
Nadim viu Lalo. Um jovem de aproximadamente 23 anos absolutamente desgrenhado, sujo, com roupas encardidas e uma pequena mochila nas costas. Aquele homem poderia roubar-lhe a casa, matar-lhe juntamente de sua filha. Ele podia ser um demônio exatamente como parecia, e até inventar de estuprar-lhe e arrancar Aditi de suas entranhas à força. Ou podia ser apenas um mendigo de passagem que buscaria ajuda de alguém da vila de bom grado. Ou um médico destes que se aventuram em vilarejos pobres que se vêem em filmes de cinema.
Nadim não quis saber o que ele era, pois nada podia ser pior do que morrer ao invés de dar a luz a Aditi. Estufou os pulmões e gritou de dor e desespero por sua ajuda.
- Pelo amor de Deus! Ajude-me! Eu vou ter um filho!
***
Lalo andava pela ruazinha de terra daquele vilarejo paupérrimo. Fazia Sol, mas a noite tinha sido chuvosa. A estradinha tinha um monte de poças de lama. Imaginava-se exatamente como queria: na cloaca do mundo, se o mundo fosse uma ave. Galinhas ciscavam por alguns cantos, cães de rua em outros. O lixo se encostava na lateral de algumas casas, ou em terrenos baldios. Havia muita terra e pouca gente. Em alguns cantos, pequenos grupos de crianças brincavam à beira de valas imundas. Estavam descalças, sorridentes, mal vestidas, barrigudas. E, por fim, felizes de sua condição. Ignoravam qualquer sinal de desumanidade em suas condições de vida.
"Se eu tivesse nascido aqui, já teria morrido, com certeza. Duas semanas depois de nascido."
Durante seu mórbido pensamento, ouviu os gritos de uma mulher que se esforçava para ficar de pé na janela. Não entendia suas palavras, mas obviamente eram berros de desespero onde estava imbuído um pedido de ajuda. Imediatamente, correu na direção da janela e segurou a mão da mulher.
***
Nadim viu o homem correr imediatamente para a janela, em resposta aos seus gritos. Segurou sua mão, e ela caiu na cama novamente, ofegante. Ele pulou a janela para dentro do quarto, e arregalou os olhos na direção da barriga estufada. Espalmou as mãos na direção de Nasim, e ela entendeu: "Acalme-se". Respirou fundo várias vezes, para mostrar a ela como deveria se comportar, até que ela o imitasse. Abriu a porta de madeira e entrou pela casa, em busca de instrumentos que pudessem servir-lhe, porque o momento era de improviso.
Separou na cozinha alguns panos à vista, pegou uma panelinha preta de fuligem e acendeu o fogo. Pegou uma tina de água escura e encheu a panela, colocando-a no fogão. Abriu a mochila, pegou alguns comprimidos de uma cartela e jogou dentro da panelinha. Voltou ao quarto com a mochila aberta e tirou de dentro alguns instrumentos para medir pressão e temperatura, e começou a ler as medidas que interessavam.
"Ora, ora. Que bela maneira de começar o dia."
Nadim se acalmou quando percebeu que o jovem sabia o que estava fazendo. Após alguns minutos, voltou ao fogo e tirou a panela. Pegou um aparelhinho do tamanho de uma pequena caixa de fósforo e mergulhou na água. Após uns trinta segundos, leu em um display digital duas letras: OK. A água estava própria para consumo. Toda a terra havia decantado. Microorganismos morreram, e havia também um aditivo em sais minerais. Derramou a água fervendo em um outro pote, jogou lá alguns pequenos instrumentos cirúrgicos, e voltou ao quarto com o restante.
Nadim se sentia muito segura, apesar da dor. Era a primeira pessoa do vilarejo que se submetia aos cuidados de um médico. Um médico de verdade. Sua filha merecia tudo isso? Nadim olhava com ternura um singelo quadro na parede oposta à sua cama. Nela figurava uma mulher montada em um tigre. Usava uma coroa, tinha oito braços e combatia um demônio vermelho com chifres de gamo. Cada uma de suas mãos tinha uma arma, exceto por uma, que segurava um escudo.
***
Em uma cama ensopada de líquido amniótico num vilarejo paupérrimo uma criança nasceu, no dia 23 de Abril de 2008, na manhã ensolarada. Veio à luz amparada por um médico recém-formado e desamparado de qualquer ajuda chamado Lalo Bruhn, que após este episódio resolveu voltar imediatamente para a casa da irmã, Norma, em uma grande cidade, no litoral de um país tropical.
Mãe e filha passavam bem, e Lalo virou uma celebridade. Um anjo, enviado por Mahadevi, para ajudar suas servas na luta pela vida.
Nadim achou que fosse explodir. Grávida de uma menina, estava em desespero. Suas contrações haviam começado uma hora depois que seu marido saiu para fazer os biscates usuais. Ela suava muito, e não conseguia se levantar. Sua barriga estava enorme. Olhava para as telhas no teto de seu quartinho, em um casebre muito pobre num paraíso verde qualquer. O pavor fazia aquela aranha no canto da parede branca e encardida parecer muito maior do que o tamanho de sempre. E olha que ela já a conhecia de dias atrás.
Fez um esforço enorme para ficar sentada na cama. Olhou através da janela aberta a rua de barro. Outros casebres se levantavam como ela do chão (sem poder) a 50 metros de sua casa. Naquele momento, por uma coincidência qualquer, ela viu Lalo andando pela rua, e isso significou a salvação de sua vida.
Chame Deus, o Diabo, Shiva ou Olorum. Ou apenas constate que a estatística permite que uma coincidência aconteça, em detrimento de outras infinitas que deixam de acontecer. Lalo era um médico recém formado. Ele havia passado os últimos cinco meses andando pelo mundo, a fim de acelerar um pouco seu amadurecimento e sua concepção sobre as pessoas... Claro que não, ele queria se divertir após suar para terminar sua faculdade. Qual era a chance de encontrar após todo este tempo entre as comunidades pobres por onde andou um caso emergencial que dependesse dele? Um dia ele ia se deparar com o inevitável: sua responsabilidade.
Nadim viu Lalo. Um jovem de aproximadamente 23 anos absolutamente desgrenhado, sujo, com roupas encardidas e uma pequena mochila nas costas. Aquele homem poderia roubar-lhe a casa, matar-lhe juntamente de sua filha. Ele podia ser um demônio exatamente como parecia, e até inventar de estuprar-lhe e arrancar Aditi de suas entranhas à força. Ou podia ser apenas um mendigo de passagem que buscaria ajuda de alguém da vila de bom grado. Ou um médico destes que se aventuram em vilarejos pobres que se vêem em filmes de cinema.
Nadim não quis saber o que ele era, pois nada podia ser pior do que morrer ao invés de dar a luz a Aditi. Estufou os pulmões e gritou de dor e desespero por sua ajuda.
- Pelo amor de Deus! Ajude-me! Eu vou ter um filho!
Lalo andava pela ruazinha de terra daquele vilarejo paupérrimo. Fazia Sol, mas a noite tinha sido chuvosa. A estradinha tinha um monte de poças de lama. Imaginava-se exatamente como queria: na cloaca do mundo, se o mundo fosse uma ave. Galinhas ciscavam por alguns cantos, cães de rua em outros. O lixo se encostava na lateral de algumas casas, ou em terrenos baldios. Havia muita terra e pouca gente. Em alguns cantos, pequenos grupos de crianças brincavam à beira de valas imundas. Estavam descalças, sorridentes, mal vestidas, barrigudas. E, por fim, felizes de sua condição. Ignoravam qualquer sinal de desumanidade em suas condições de vida.
"Se eu tivesse nascido aqui, já teria morrido, com certeza. Duas semanas depois de nascido."
Durante seu mórbido pensamento, ouviu os gritos de uma mulher que se esforçava para ficar de pé na janela. Não entendia suas palavras, mas obviamente eram berros de desespero onde estava imbuído um pedido de ajuda. Imediatamente, correu na direção da janela e segurou a mão da mulher.
Nadim viu o homem correr imediatamente para a janela, em resposta aos seus gritos. Segurou sua mão, e ela caiu na cama novamente, ofegante. Ele pulou a janela para dentro do quarto, e arregalou os olhos na direção da barriga estufada. Espalmou as mãos na direção de Nasim, e ela entendeu: "Acalme-se". Respirou fundo várias vezes, para mostrar a ela como deveria se comportar, até que ela o imitasse. Abriu a porta de madeira e entrou pela casa, em busca de instrumentos que pudessem servir-lhe, porque o momento era de improviso.
Separou na cozinha alguns panos à vista, pegou uma panelinha preta de fuligem e acendeu o fogo. Pegou uma tina de água escura e encheu a panela, colocando-a no fogão. Abriu a mochila, pegou alguns comprimidos de uma cartela e jogou dentro da panelinha. Voltou ao quarto com a mochila aberta e tirou de dentro alguns instrumentos para medir pressão e temperatura, e começou a ler as medidas que interessavam.
"Ora, ora. Que bela maneira de começar o dia."
Nadim se acalmou quando percebeu que o jovem sabia o que estava fazendo. Após alguns minutos, voltou ao fogo e tirou a panela. Pegou um aparelhinho do tamanho de uma pequena caixa de fósforo e mergulhou na água. Após uns trinta segundos, leu em um display digital duas letras: OK. A água estava própria para consumo. Toda a terra havia decantado. Microorganismos morreram, e havia também um aditivo em sais minerais. Derramou a água fervendo em um outro pote, jogou lá alguns pequenos instrumentos cirúrgicos, e voltou ao quarto com o restante.
Nadim se sentia muito segura, apesar da dor. Era a primeira pessoa do vilarejo que se submetia aos cuidados de um médico. Um médico de verdade. Sua filha merecia tudo isso? Nadim olhava com ternura um singelo quadro na parede oposta à sua cama. Nela figurava uma mulher montada em um tigre. Usava uma coroa, tinha oito braços e combatia um demônio vermelho com chifres de gamo. Cada uma de suas mãos tinha uma arma, exceto por uma, que segurava um escudo.
Em uma cama ensopada de líquido amniótico num vilarejo paupérrimo uma criança nasceu, no dia 23 de Abril de 2008, na manhã ensolarada. Veio à luz amparada por um médico recém-formado e desamparado de qualquer ajuda chamado Lalo Bruhn, que após este episódio resolveu voltar imediatamente para a casa da irmã, Norma, em uma grande cidade, no litoral de um país tropical.
Mãe e filha passavam bem, e Lalo virou uma celebridade. Um anjo, enviado por Mahadevi, para ajudar suas servas na luta pela vida.
*** Inspirado em Lab-On-A-Card


